O poder inteligente
Há muitas vias para o exercício do poder. A dominância é das formas brutas como o poder militar e o poder econômico. A vida diplomática já é mais suave, usa punhos de seda para negociar duramente. Ter uma diplomacia profissional, com carreira específica, treinamento de primeira linha é, portanto, um recurso de poder muito importante nas relações com outras nações. A diplomacia profissional é o esteio das formas mais sutis de poder, de soft power.
Há uma dimensão neste plano do poder sem garras que usa as dotações e talentos disponíveis para ganhar influência e voz acima do potencial militar e econômico do país. Escrevi um artigo para a Revista Brasileira de Ciência Política sobre a megadiversidade biológica brasileira como um recurso de soft power e lembrei que a bossa nova e, especialmente na era Pelé, o futebol, foram elementos importantes de nossa influência internacional. Ancorados por nossa diplomacia profissional, reconhecida globalmente por sua qualidade, o Brasil sempre exerceu mais poder na arena global muito além do que lhe permitiriam o poder militar e econômico. Quando destruímos a Amazônia, o Cerrado e a Mata Atlântica, estamos reduzindo nosso poder inteligente, nossa capacidade de ter voz influente nos temas globais mais relevantes e naqueles temas específicos que são de nosso interesse, nos planos multilateral e bilateral.
É preciso reeducar o olhar e aguçar a percepção para sermos capazes de identificar as fontes de soft power tanto nas relações internacionais, quanto nas relações sociais e interpessoais. É pelo soft power, pelos canais de influenciação que surgem hoje os “influenciadores”, os caçadores de cliques e seguidores nas principais plataformas de relacionamento, nas redes sociais da Websfera. Quando uma pessoa consegue reunir uma audiência de massa, sua capacidade de repercutir ideias, memes, produtos, locais se transforma em um recurso sutil de poder que atrai o interesse e agentes econômicos, políticos e culturais.
Os algoritmos se tornam, dessa forma, um instrumento regular das fontes digitais de soft power criando desigualdades, vieses, que só uma regulação inteligente e digital pode conter. É possível reescrever logaritmos para evitar que gerem tantas distorções seja na diversidade de conteúdo que circulam, quando das audiências e acessos ao universo informacional das redes.
O grande problema hoje é que só se concebe regulação analógica para regrar formas puramente digitais, ainda que de propriedade e controle privados no mundo físico. Por se tratar de um fenômeno emergente e figital, físico e digital, só mecanismos figitais teriam alguma chance de sucesso na sua regulação.

Gente, feliz aqui. Nosso @Sergio Abranches, com toda a sua sólida formação intelectual e uma trajetória reconhecida na análise da política e das grandes transformações do nosso tempo, encontrou no Substack um abrigo à altura de suas ideias. Ali, sem as limitações do imediatismo das redes sociais, desenvolve reflexões densas, livres e indispensáveis. Eu digo e repito sempre: as reflexões do Sérgio são indispensáveis. Tem sempre pensamento consistente e argumentação bem construída.